Acabava de falar o bambambam da migração latinoamericana. Metade do auditório levantou para tentar algum contato. Eu fazia parte desta metade. Fui ficando atrás, aproveitando para escutar as perguntas e pedidos em quase off. Faltava uma e era eu. Ela tinha um casaco vermelho em cima de um vestido vermelho em cima da calça jeans. Os olhos brilharam e o punho se manteve firme: “eu estou criando um movimento de mulheres migrantes”. Não era bem isso, mas chamou minha atenção. A guerreira então sentou a uma cadeira de mim, do lado oposto do alemão do post que virá. Cochichando disse que queria falar com ela um pouco, depois. Sentamos juntas para o almoço do tal seminário. Uma de frente para outra quase num espelho. Ela 27. Eu 28. Ela Elizabeth. Eu Eliza. Ela rodando um doc sobre emigradas. Eu propondo um doc sobre emigradas. Ela com aquela coisa de acreditar num sonho, num desejo. De olhar no fundo dos olhos dele e falar: “sairás do plano das idéias, oh idéia”. Eu também, e cada vez mais, amém. Ela migrou seis meses para os EUA. Só no dia seguinte, porque quando o encontro é assim e é possível há de se almoçar de novo, me contou dos perhaps do caminho. Ela migrou por crises inadministráveis no momento. Demissão, fim de namoro, família se desintegrando. Foi para poder sair do redemoinho da vida. Da vida que lhe escapou das mãos. Foi por isso que se pôs em movimento. Na solidão, nos passos, foi se reconstruindo. No norte trabalhou como nunca havia trabalhado. De garçonete de um lado para garçonete no outro. Um dia chegou no trabalho e o chefe disse: “assina o ponto e vamos para a minha casa”. Ela disse “não”. Insistiu no “não”. E não foi. Das cantadas começou a ouvir desaforos: “deixa a sua irmã na minha jaccuzi e está tudo resolvido”. Foi nos chefes do chefe (era uma franquia) e acusou o abusador. Ele inventou mentiras e ela sentiu medo. Um dia chegou no trabalho e ele, a esposa, um suposto advogado e um suposto da migração a aguardavam: “fala publicamente que mentiu e tudo seguirá bem. caso contrário te deportamos”. Elizabeth foi ao banheiro, do celular da amiga ligou para a mãe dela, da amiga. Se acalmou, um pouco, o quanto podia. Saiu e disse que não sairia dali: “então vamos te deportar”, “eu tenho visto”, “mas não pode trabalhar”, “quem disse que eu estou trabalhando? tem algum papel assinado?”. Não tinham. Venceu o cinismo divertido. Porque um patrão que contrata ilegais para pagar menos chamar a deportação é piada de mau gosto. Mas as amigas de Elizabeth que não tinham o visto estampado de turista, ou a coragem rasgada da atriz não haviam chegado tão longe. Haviam ido a casa do patrão. Uma a uma foram se confessando, lamentando, desabafando. Sem detalhes porque a culpa, o asco ou a vergonha não permitiam. O processo da mexicana continua rodando nos EUA. “Soube que outras duas meninas que entraram lá agora, que foram cantadas já denunciaram ele também, aproveitando o processo”. Mas depois de tudo Elizabeth se encontrou com Elizabeth. Não precisava mais estar lá para estar consigo. Voltou.
Hoje, dona de si, dos passos e sorrisos toca seus projetos intensos. Co-dirige uma obra com um espanhol, prepara seu doc de emigradas, das amigas que continuam lá por cima. Um dia veremos a vida que ela editou projetada em algum festival. Prometemos ir para Tijuana juntas. Pensamos em juntar forças. Por hora brindaremos – me voy que és hora do terceiro encontro!
Ps: Elizabeth é a segunda personagem do próximo Saia por Aí: dia 03/09 na GNT!
A menina com a flor amarela na cabeça, o vestido lilás e a sombrinha florida carregava olhos cinzas de quem já não quer mais. Andava tentando livrar-se deles e a cada passo caiam cacos de já não. não mais. Lembranças de dias que não deveriam, não devem, ser lembrados. Aos poucos a mirada se coloria de lilás, de amarelo, de florido, de verde e vermelho. De vida, de sonho. Ela nasceu na França mas a mãe veio das Arábias. A matriarca nunca aceitou não poder ser o que era. E para sê-lo teve que ir. Cruzou a Espanha, cruzou as culturas distantes, tirou as roupas: “eu vim do caminho” me disse a filha. Veio dos passos que buscam mais. A mãe pobre, migrante ralé, começou catando coisas. O dom das artes ficou em alguma lata com o sonho do brilho. Os cinco filhos vivos, dos seis que pariu, puderam dar-se ao luxo de ser mais que sobreviventes. Fouzia sabia da sorte. E por isso lutava contra a tristeza, lutava contra o tempo que não lhe permitia quarenta horas em vinte quatro. E ela sim brilhava: circo, teatro, trabalho social, estudos, e mais, e mais. Mais. Mas era tudo tanto que um dia cansou. Caiu na cama e o frio parisiense congelou os planos. Esfriou os pés. Chorou pelas provas que não lhe garantiam dez. Paralisou pelo amor que não foi, não tanto quanto deveria. Sempre pode mais. Sempre poderia. Cansou de não ser-se. Mas já não sabia. Foi ficando: “queria parar de existir”. “O que é diferente de querer morrer”. Isso ela me disse assim como quem diz. Como quem sabe bem uma e outra coisa. Ela queria virar ar e ir. Ir dali. E então cruzando o parado uma faísca de esperança lhe chegou por email. Ela arrancou o talvez e calçou as meias. e seguiu. Foi. Protegendo-se do sol e entregando-se ao passado presente das ruínas, a francesa de todo o mundo caminhava em busca de si. Ia até que irá. Ah, mas irá.
Talvez, já foi.
Beijo Fouzia. Boas sombras e muito sol!
Ps: Fouzia é personagem, linda, da próxima matéria do Saia Justa.
Voltei.
Vi que tinha voltado quando no posto de migração Guatemala x México perguntei para o oficial se necessitaria pagar toda vez que cruzasse a fronteira Mexico x EUA, porque eu ficaria indo e voltando e ele sem entender me pediu para explicar. Virei para o oficial do outro lado da janela, com meu passaporte em mãos do lado de lá e disse assim, sem pensar nem rir: “é que eu estarei trabalhando lá na fronteira norte: faço tráfico de armas então tenho que ir e voltar o tempo todo” e comecei a gargalhar. Ele respondeu com outra piada e depois riu também. E aí entrei no México com o humor em forma e o pé da sorte. Afinal a sorte que não é tonta costuma acompanhar os risos. (ou seriam os risos que acompanham a sorte?)
Na véspera lia “La mano del emigrante”, um livro lindo com fotos, crônicas jornalísticas sobre sobrevivientes de naufrágio e um conto sobre imigrantes na Inglaterra. Relia a parte que um acidente mata o taxista e um dos migrantes. O outro sobrevive. Triste. Choro. Eu depois de passar o posto migratório entrei numa van com outros tantos gringos de todo lado. Viajava pela janela quando a van freiou. Olho para frente e vejo um fusca vermelho com as laterais totalmente destruídas jogado entre as duas pistas.
Na frente dele um homem ensaguentado, como um fantasma, vem em nossa direção. Dois dos gringos numa rapidez admirável, saem do carro para buscar o kit de primeiro socorro em suas mochilas. Eu paraliso imaginando o segundo migrante, morto dentro do carro. Respiro e sigo. Começo a catar as laranjas e queijo e ferramenta e não-sei-mais-que espalhado pelo asfalto. Vou colocando tudo numa bolsa plástica, tentando resgatar parte da perda para o vivo-morto-vivo e vejo que o outro homem também vivia, inteiro. Consigo então me aproximar e ofereço ajuda. Começo a limpar a testa-sangue, bochecha-sangue, sobrancelha-sangue, a olheira inchada/cortada enquanto um nórdico enrola uma faixa na cabeça um pouco aberta.
O homem me olha com seu olho que por cinco-milímetros-de-sorte-dentro-do-azar continua vendo: “eu nasci de novo. hoje nasci de novo. minha vida recomeça aqui”. Uma energia que não é minha fala por minha boca e começo a bendizer sua nova vida, seus novos sonhos, sua nova sorte. O motorista nos apressa e volto para meu caminho agradecendo o final do livro que a vida me deu. Que a vida lhe deu. Esperança. Viva!
O dia de ontem começou estrainho. Andava na zona 10 da Cidade Guatemala, uma das áreas mais bacanas da capital. No ouvido meu mp3 cantarolava transformando meus passos num videoclipe. Olho para procurar um táxi na batida da batera; vejo os passos da mulher da frente no ritmo do baixo, o carro acelera no refrão. Me sinto a cantora caminhando em busca de sei lá quê e desconecto do mundo real. Enquanto uma coisa meio eletrônica me fazia lembrar a primeira vez que escutei a tal música em casa, em Sampa, um homem me tomou o radinho da mão, quase levou o dedo de brinde, e junto com seu parceiro atravessaram a avenida correndo: “pero está roto!” gritei prevenindo de que não teriam muito lucro com o roubo. Quase ri, porque já nos entendíamos pouco, eu e o mp3 semi quebrado, e continuei o videoclipe, naquele pós música em que o ruído da cidade sobe de volume e a protagonista acaba sua participação em slow motion. Entrei num táxi sem bem entender que tinha sido roubada finalmente (lembra que há dois dias foi por um triz? Agora foi, mas estava com minha câmera na mochila e continuei com ela lá… tudo lindo! E estas são as fotos prometidas do dia do quase!) e fui para a entrevista com Walda Barrios.
Ela, feminista que foi candidata a vice presidência da Guatemala não apenas estuda a questão da migração como viveu a guerra civil do outro lado da fronteira, no Chiapas/México. Entre tantas coisas interessantes que falou uma me fez reacender um monte de sinapses. Ela disse que com a assinatura do acordo de paz, em 1996, depois de quinze anos de vida em San Cristobal não teve vontade de voltar. Sua filha também não quis e hoje vive nos Estados Unidos. O marido e o filho quiseram. Ela acabou voltando porque não queria abrir mão de sua vida a dois, do parceiro da sua vida. Eu já havia escutado estudos sobre isso: as mulheres quando migram logo criam redes, se relacionam com os vizinhos, constroem novos vínculos afetivos, viram daquela terra mesmo. Os homens ficam na nostalgia do que foi, do país distante, do que não tem. Não que seja sempre assim, vejam bem…, mas isto tem se apresentado como uma tendência em minhas andanças. Vou estudar mais para em dezembro preparar uma matéria sobre o tema, lá do lado de cima. Mas voltei pensando nas redes. Fiz mais tantas coisas, sem música, snifs, e a noite já cansada me chega um email que deu outro sabor ao dia: a Dolores deu notícia!
Lembra a menina linda que deu a luz a Bianca Sofia num albergue mexicano? Pois bem, ela já chegou no norte do México. Teve um febrão de 40 graus conseqüência de uma infecção por não ter descansado e comido direito depois do parto. A ambulância veio e ela foi internada. Felizmente o amigo que fez no albergue lá embaixo e que se ofereceu de acompanhá-las até os EUA, Alejandro, lhe trata como bem merece. No hospital descobriram que ela era hondurenha e disseram que iam deportá-la. Ele então se ligou e “sequestrou” a amiga. Agora Dolores se recupera enquanto Alejandro faz as mamadeiras, as comidas e lhe ensina história e inglês. Juntam dinheiro para um coyote cruzá-los para os Estados Unidos, sem ser pelo deserto nem pelo rio, para não colocar em risco a pequena Sofia. Fiquei com o coração na mão de imaginar aquela menina tão doce e linda e frágil lá doente com sua bebê, tão longe da família. E ao mesmo tempo fiquei emocionada de receber notícias. Que as duas e também seu anjo protetor Alejandro cruzem a linha e formem uma rede, uma nova vida no norte! E que estes azares do caminho fiquem pelo caminho… Sorte!
No dia que pisei na Guatemala senti que a viagem mudava de rumo. Quando entrei no primeiro “chicken bus” nacional meus olhos foram devorados por cores de roupas mayas, umas línguas totalmente incompreensíveis, risadas altas e lentas e uma sensação de que aqui o papo é outro: meu sangue latino americano não tem nada a ver com este outro país. A sensação de que compreendia a cultura e sei lá o quê que me ligou aos outros países centro americanos até agora, por ter um passado colonial e político mais ou menos parecido, desapareceu nos primeiros minutos de Guatemala.
Encantada com este diferente propus a pauta da beleza maya para o Saia Justa. Comecei a andar pelas ruas buscando rostinhos bonitos e um padrão meu de beleza para fazer a matéria. Andei por paisagens deslumbrantes (como Antigua, uma cidade colonial linda e o Lago Atitlán, cercado por três vulcões) e simplesmente não encontrava minhas modelitas. E foi então que me caiu a ficha: se queria entender o padrão de beleza de outra cultura não podia aplicar o meu brasuca/europeu/norte americano para começar o papo. Nó na cabeça…
As mayas guatemaltecas, via de regra, são da classe baixa afinal até 1944 a Constituição garantia o trabalho “grátis” prestado por indígenas mayas aos fazendeiros do café e prefeituras. Até hoje o preconceito caminha pelas ruas e para ingressar em classes econômicas mais altas normalmente é necessário deixar de ser, ou deixar de parecer “índio”. Logo as personagens não seriam mulheres classe média como foram todas as entrevistadas para o quadro Saia por Aí até agora. Vencida a barreira de número um comecei a entrevistar mulheres coloridas em diferentes vilas para registrar trajes de povoados diferentes. O falar lento de quem tem o espanhol como segunda língua temperou suas respostas e aí veio minha segunda surpresa: não há roupa especial, há roupa nova. Mas cada dia é vivido de alguma forma especialmente e o mais sensacional de se produzir para uma festa é se sentir parte de sua comunidade, é estar vestida como todos. Uau! Saí da matéria com uma sensação de quem sai de outro mundo. Com a sensação boa de que apesar das dificuldades e de todo o colonialismo imposto outras culturas colorem, lutam e sobrevivem em nosso continente.
Mais do que misticismo ou qualquer coisa sobrenatural a tal da intuição me soa como algo materialissímo, o se admitir pouco frente ao muito que somos; algo assim. Se a metafísica diz que vemos só um sei lá que pouquinho da realidade sinto que o racional capta um tiquinho mas que na verdade a gente é muito mais esperto do que o que a gente acha que é. Foi com isso na caxola que decidida a tirar as fotos que me desse vontade andei com a câmera pendurada no pescoço em plena zona um da ciudad guatemala, no centrão da capital mais “oh ya” da América Central. O país viveu 36 anos de guerra civil e o acordo - formal - de paz só chegou em 1996. Foi assinado sobre 200 mil cadáveres, 80% deles indígenas num claro genocídio. As causas do conflito continuam latente na sociedade, a discriminação contra os mayas é cotidiana e todo dia uma média de 17 pessoas são assassinadas; ontem foram “só” onze sendo quatro mulheres.
Ok, está é a próxima matéria da Fórum. Um pouco informada e um pouco crente liguei a anteninha do “respeito o que não entendo” e busquei sinais disto pelas ruas para as fotos. Guardei a câmera e entrei no ônibus. Não senti confiança no homem no banco de trás e fiquei quietinha observando a mulher maya e seu reflexo no vidro. O tal cara desceu e eu saquei a câmera e disparei algumas. Imediatamente uma mulher veio: “hablas español?” e me falou para guardar a câmera “ya”. Respondi que corria o risco de perder a câmera ou de perder o emprego. Agradeci bastante. Guardei. Vi que ainda não tinha conseguido dar o clique no momento X. Tirei a câmera e continuei. Coloquei ela escondidinha no colo e aí veio um vulto estranho pela porta de trás. Sem pensar, no impulso, naquele não sei o que sei, guardei discretamente a camêra. O vulto ficou atrás da porta. Outro que também subiu pela porta de descer sentou do meu lado. Poucos minutos e este cara levanta atravessado, eu até pedi “perdón” sei lá por que e ele começou a assaltar o cara atrás de mim que tinha fones de celular no ouvido. Olhei para tentar entender o que rolava, voltei serenamente a cabeça para a frente e já fui me despedindo da câmera, pensando quais fotos ficariam perdidas no cartão e agradecendo por ter dado meu rim para pagar o seguro do equipamento. E foi então que os dois…. desceram. Fiquei lá com a câmera, um sorriso de “como assim? Quanta sorte no azar” e um milhão de obrigada obrigada obrigada para a mulher “quem avisa amigo é”. Ufa!
Ps: subo a noitinha a foto tirada – não ficou ainda como devia, mas… achei melhor depois de tudo desencanar da imagem… re
Hoje volto para os dias de migração depois de uma pausa para editar matérias para a Televisión America Latina e fazer o próximo video para o Saia Justa (quarta que vem na GNT!).
Já passei dos quatro meses de estrada e a verdade é que começava a me anestesiar, tipo, “ah, que bonito, ahã, bonito”. Afinal toda semana era uma nova maravilha a ser descoberta. Mas no primeiro “chicken bus” que entrei na Guatemala me deu um clique! Agora começou outra viagem! gritaram meus olhinhos. As mulheres mayas no banco da frente riam com um tempo diferente do meu capixaba/carioca/paulistano.
Os olhares tinham uma doçura, um quê que já não lembrava. As línguas, 22 incompreensíveis, me faziam sentir meio que na Ásia. Com seus traços orientais indígenas e uma tipo saia comprida e reta de um tecido duro, bem amarrada na cintura, com três voltas de cinta prendendo, apertada mesmo, me faz lembrar o andar de uma chinesa. As blusas (guipil) coloridíssimas, cada vila com seu bordado típico, no meio das paisagens me lembram fotos de plantações do outro lado do mundo. Bonito! Bonito…
Foram dias de Antigua e de Lago Atitlan. Uma cidade colonial linda cercada por vulcões e um lago azul bem azul com outros três vulcões - são 33 na Guatemala. Deixo algumas fotos para dar um gostinho do que escrevo. Hasta!
americano do norte, americana do centro
eu com meu marshmelow (como escreve isso?) vulcânico!
mickey e as ruinas de antigua (an?)
jesus, menina maya, ruínas, vulcão e walt disney (an? an?)
Sentei na mesa de café da manhã do luxuoso e lindo hotel Casa Palopó. Veio a gerente, pediu licença, sentou. Já ensaiava minhas perguntas quanto ao número de quartos, perfil de hóspedes, qual é a alta estação quando Sandra começou a falar do poder do feminino, feminismo, Simone de Beauvoir e Foucalt. Arregalei os olhos, senti o silêncio vulcânico e esqueci todo e qualquer papo de praxe com gerentes de hotéis. Pincelamos sobre cultura maya, envelhecer, auto empoderamento, menopausa, obrigação social de ter um hômi do lado. Sandra, quarentona linda, citou sei lá quem e sua teoria de que quando entendemos o nosso fluxo, nossa missão, tudo flui. E assim me senti ali. Terminamos o papo no jantar, onze e tanto, desenhando um projeto juntas. Adiei minha ida para capital e no dia seguinte fomos de Palopó para o outro lado do Lago Atitlán. San Pedro é a vila dos mochileiros: sexo, drogas, diversão e bons preços, dizem. Fomos procurando um xamã maya e acabamos na casa de uma curandeira e “osseira”.
Vicenta ela chama. Começou contando que seu dom veio num sonho, depois de quase destruir o casamento porque o marido não aguentava mais a mulher doente todo o tempo. Para se curar Vicenta tinha que curar também. A mulher abriu a porta de sua casa recém construída por um gringo que virou seu discípulo e em cinco minutos havia resumido a vida. Contou do “quase” estupro que sofreu na última consulta médica para curar suas dores. Seus olhos molharam: “nessa hora da minha vida eu não sentia mais nada”. Contou de como colocou os ossos do sogro no lugar, depois do genro, depois do marido. Contou como uma mulher bem branca e alta, que usa uma bata compriiiida, chegou em seu sonho e lhe ensinou a fazer tudo que faz. Contou da vizinha que sonhou que ela poderia curar seu filho que sofria de mal olhado e de como ela curou o pequeno. Curou outro outro outro outro até que sonhou que podia curar. Mais lições oníricas brotavam da boca da mulher maya que se esfroçava para falar o espanhol.
No final pedimos para ser curadas também: quem depois de todo o papo não lembra de um probleminha? Não contei o meu. Ela foi me massageando com um ovo de galinha e então disse para o cunhado numa língua bonita e ele me traduziu: “você quer fazer tudo muito bem feito, e se não sai do jeito que você quer você fica assim, tão cansada”. Vicenta diz que é uma voz que fala por ela estas coisas. Eta vozinha danada…
Era uma bolsinha pretinha de bolinha coloridinha. Estavamos juntas há muito tempo. Quando não queria mochila nem peso na vida saíamos só as duas para passear. Ela cuidava das coisas materialmente importantes. E eu cuidava dela. Assim era. Hoje depois de tirar todo o dinheiro que o caixa automático me permitiu guardei tudo nela. Tentei tirar um pouco mais mas o caixa estava com defeito e eu com atraso. Fomos para a van e nem coloquei a grana no esconderijo secreto onde fica o dinheiro que não será usado nas próximas 30 horas. Quase três horas de Antigua Guatemala a Panajachel e veio o cais do lago Tikal. Que imensidão linda.
Sem almoçar às 4 da tarde fui comprar belisquetes para devorar no barco: banana, biscoito de aveia, suco de pêssego e um chocolatinho, afinal são dias de tpm. Entrei no barco, comi, adorei a vista. Cheguei em San Marcos onde iria para uma pirâmide, um centro de yoga e meditação para respirar mais e centrar mais e descobri que minha amiga de bolinhas não estava.
Revira dez vezes a mochila, dá uma choradinha. Explica para o barqueiro do Titanic (fala sério se isso é nome de barco). Revira. Espera o próximo barco. Agradece aos turistas israelenses sensibilizados que ofereceram dinheiro emprestado. Uma choradinha. Outro barco, sentido inverso. Agradece ao mexicano-guatemalteco que se ofereceu pagar o barco. Volta. Agradece ao barqueiro que aceitou que eu pague depois, um dia. E claro, alguém gostou da bolinha e levou ela de amiga. Chora mais um pouquinho, pensa nos planos a b c d. Papai, mamãe e maninha provam que estão tão perto mesmo tão longe. E no fim sobrevivi, um pouco mais pobre mas com mais experiência (re). E então decidi colocar dicas simples, algumas óbvias, de viajante. Assim também ajudo a umas gatinhas que tem me escrito pedindo dicas de viagem, lugares e bláblá.
- nunca ande com mais dinheiro que o que gastará nos próximos, sei lá, dez dias;
- mas nunca ande com menos que para os próximos dois; sabe como é caixa eletrônico com defeito na cidade e nenhum amigo por perto;
- além disso deixe uns cinquenta dólares escondido dos outros e de você mesma em algum canto da bagagem para em caso de “ai, oooh, shit” ter como pagar um ônibus, hotel, jantar e chocolatinho anti depressivo;
- não pense em viajar sem dois cartões de crédito internacionais, de dois selos diferentes; antes de sair do país ligue para a central de atendimento e autorize que eles funcionem para compra e saque no exterior (sim, eles ficam bloqueados se você não fizer isso);
- guarde um cartão com o passaporte numa destas pochetes internas; quando for viajar com toda a bagagem coloque ela embaixo da roupa; quando estiver em hotel esconda ela dentro de alguma parte secreta da bagagem e deixe no quarto; se for hotel bacana guarde no cofre; se for chinfrim guarde dentro do dentro de algo;
- ande com o outro cartão, uma cópia do passaporte incluindo a cópia da página com o carimbo de entrada no país em que você estiver e um documento xis com foto;
- deixe na carteira o dinheiro do dia e um extrinha pelas dúvidas;
- estude um pouco o lugar onde você vai para ter noção dos preços e não ser tratada como tão tonta; eu uso o lonely planet e ele dá dicas de quanto será o táxi da rodoviária até não sei onde por exemplo; também se informe de qual será o câmbio da moeda (na entrada da guatemala eu desci do ônibus dormindo e dancei na troca de dinheiro; o cara não me deu nem metade do que deveria; então já vá com um cálculo mais ou menos de quanto tem que receber pelo xis que você trocará na chegada);
- normalmente o melhor cambio é feito pela operadoras de cartão de crédito mesmo, que usam o oficial; então saque em cada país o que gastará já na moeda local (se eu tiver falando besteira alguém me conte e me fale o que é melhor… mas é isto que eu faço…);
- evite chegar de noite nos lugares; se for chegar já deixe algum hotel reservado;
- deixe as coisas mais ou menos planejadas para não correr o risco de ficar sem hotel onde queria ou perder aquela festa tradicional porque só viu a data depois;
- não deixe tudo assim tão armado a ponto de não poder trocar todos os planos se o vento soprar noutra direção – se você escutar falar de não sei quê incrível ou conhecer alguém ótimo que estará onde você a princípio não estaria;
- se estressar, for passado para trás, brigar na rua, o que for… tente entrar num lugar simpático, pedir um café, coca, água, suco e relaxe. Depois continue, cuca fresca!
A matéria dos filhos sem mãe - “Sociedade de filhos tristes” - está nas bancas e um trechinho na web. Para quem quer saber um pouco mais das consequências familiares da migração, siga o link!
Seguindo a trilha das latinas do Panamá aos Estados Unidos, a jornalista Eliza Capai coleta histórias de mulheres que não se importam com as linhas imaginárias. O blog fala de quem une um continente com passos e também de quem, pelo traço e som, tenta juntar os pontos do continente separado. O blog, no final, virará um livro. Você também pode conferir as reportagens de Eliza no programa "Saia
Justa" (GNT, quartas, 22h30).
Fale com a ela: elizacapai@yahoo.com.br
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Roteiro da viagem
25 de março - 12 de abril: Panamá 13 de abril - 26 de maio: Costa Rica 27 de maio - 21 de junho: Nicarágua 22 de junho - 12 de julho: Honduras 13 de julho - 18 de julho: Mexico 19 de julho - 30 de julho: Guatemala 31 de julho - 13 de agosto: Belize 14 de agosto - 17 de setembro: México 18 de setembro: Estados Unidos